A ética do jogo: o que podemos aprender com o caso do atacante Jô

Mas afinal, qual a ética envolvida nos jogos de futebol? E de que forma o profissional de Educação Física pode aprender com esse episódio?

A temporada do futebol brasileiro em 2017 nem chegou ao seu final e já suscita motivos de sobra para discussões, principalmente quando o assunto é a ética no esporte. Um dos casos de maior repercussão ocorreu no dia 17/04/2017, na primeira partida da semifinal do Campeonato Paulista, no clássico entre São Paulo e Corinthians. Naquela ocasião o árbitro se equivocou e aplicou um cartão amarelo no atacante Jô do Corinthians, que ficaria suspenso da partida de volta, por uma suposta falta no goleiro adversário. O zagueiro são-paulino percebendo a injustiça se dirigiu ao árbitro e se acusou de ter sido ele o responsável pelo choque com seu próprio goleiro, eximindo o atacante rival de qualquer culpa no lance. O árbitro prontamente anulou a punição que havia sido imposta ao atacante.

Não demorou muito para que toda imprensa, jogadores, treinadores e demais envolvidos com o futebol começassem a emitir opiniões sobre o ocorrido, principalmente por meio das redes sociais, incluindo aí o próprio atacante, que acabou sendo “beneficiado” pelo ocorrido, podendo jogar a partida de volta devido à anulação do cartão amarelo pelo árbitro do jogo. O jogador chegou a elogiar a conduta do adversário, dizendo que desde então tem se policiado para ser o mais honesto possível durante os jogos.

No entanto o que observamos, em outra ocasião, foi uma conduta contrária às suas palavras. No dia 17/09/2017 em jogo contra o Vasco da Gama, válido pelo campeonato nacional, o atacante anotou um gol com a mão (braço) e em entrevista disse não saber onde a bola bateu, não reconhecendo a sua irregularidade no lance que deu a vitória ao seu time. Novamente, não demorou muito para que os envolvidos no esporte voltassem a se manifestar sobre o assunto, sendo que nas redes sociais e mídias eletrônicas houve uma enxurrada de comentários, contra e a favor do ex-atacante da seleção brasileira.

Mas afinal, qual a ética envolvida nos jogos de futebol? Qual dos dois jogadores agiu de forma correta? Teria agido errado algum dos dois e ido contra os valores éticos do esporte? Embora estas perguntas não tenham uma resposta única e definitiva, algumas questões podem ser pensadas a partir dos fatos ocorridos.

A organização máxima do futebol (FIFA) vem pregando o jogo justo (Fair Play) nas partidas, embora o que vemos nos campos, principalmente do Brasil, são os costumeiros lances em que os atletas “cavam” faltas, se atirando ao chão sem que qualquer contato com ele tenha ocorrido, ou caem no chão simulando uma lesão ao perceberem que serão substituídos, procurando ganhar alguns segundos com a entrada da maca, ou até mesmo casos em que os treinadores fazem alterações apenas para “ganhar tempo” quando estão vencendo as partidas. Estes são apenas algumas situações que podemos observar envolvendo questões éticas e morais. Mas voltando a questão do Jô, e apenas como simulação e provocação, se fosse o Rodrigo Caio a fazer o gol no lugar do Jô com o São Paulo na zona de rebaixamento. O Rodrigo Caio teria se acusado? Não cabe aqui fazer juízo de valor, apenas refletir sobre a questão.

Vimos diversos jornalistas questionando e afirmando que o Jô deveria ter se acusado. Ao tomar como referência essa condição, também teríamos de exigir que todos os que puxam a camisa, deslocam o adversário sem a bola, que fazem pênalti, que simulam se acusassem. Teríamos, evidentemente o mundo ideal, inclusive não precisaríamos mais de árbitros nos esporte… Ou esquecemos por que essa personagem foi incluída no esporte? Por que essa mesma argumentação não foi utilizada no pênalti não marcada contra o próprio Jô. E essa análise não pode ser dentro das paixões.

Agnel, Henderson e Woods (2017) em revisão sistemática sobre a ética envolvida no esporte de elite, colocam que, devido ao seu papel de modelo de conduta perante a sociedade, espera-se que os atletas hajam, dentro e fora dos locais de competições, de maneira a permitir um jogo justo para todos as atletas, ainda que eles não sejam perguntados sobre a vontade de serem, ou não, este modelo para as demais pessoas. Eles dizem, ainda, que é esperado que os atletas tenham o desejo de vencer as partidas. Vemos assim que nos casos acima, podem ambos ser considerados dentro da ética do esporte, pois enquanto um procurou o jogo justo, mesmo podendo ser elogiado ou cobrado como sendo uma atitude inadequada que prejudicaria sua equipe; outro acabou priorizando a busca pela vitória, ainda que com um gol aparentemente irregular.

As situações acima teriam repercussões bem menores se tivessem ocorrido em outra época, como quando, por exemplo, Nilton Santos deu dois passos para fora da área, após ter cometido pênalti em um jogador espanhol na copa do mundo do Chile em 1962, ano que o Brasil ganhou seu bicampeonato mundial. Muitos brasileiros, e até mesmo o próprio jogador espanhol que sofreu o pênalti (ver matéria do portal G1 do dia 06/06/2012), elogiaram o brasileiro por ter enganado o árbitro, demonstrando que a ética neste esporte não é somente a do jogo justo e que não são somente os brasileiros que se aceitam o uso de artifícios para tentar ludibriar os árbitros em busca das vitórias. E é possível que dentre esses que hoje riem da atitude e malandragem do brasileiros em 1962 e levem como uma marotagem, sejam veementemente acusadores e críticos da atitude do Jô.

Hoje em dia, com o crescente avanço das mídias digitais e das redes sociais, os casos acabam tendo uma repercussão maior, tendo as situações a ver como o jogo (como foram os casos acima citados) ou não. A própria mídia, competindo por espaço no mercado, acaba por transitar na fronteira dos valores éticos, criticando os atletas a partir de seus próprios valores, como bem notaram Burroughs e Vogan (2015).

Enfim, não devemos execrar e nem enaltecer as condutas de Jô e Rodrigo Caio de antemão, uma vez que não é possível reduzir as questões éticas do esporte ao nível moral de cada atleta, citando apenas aos jogadores envolvidos nas situações do início do texto, e nem mesmo reduzir os questionamentos apenas aos futebol brasileiro, de forma que cada sociedade, em cada momento, deve promover uma discussão muito mais ampla sobre a ética no esporte, envolvendo todos os atores, como jogadores, treinadores, dirigentes, imprensa, torcedores e patrocinadores, pois somente assim cada sociedade poderá ver em campo os valores que querem ter disseminados, pois uma coisa é certa, o atleta de elite é visto em muitas sociedades atuais como um modelo para muitas pessoas, sendo seus valores e comportamentos copiados por muitos.

Referências

1. Agnew, D.; Henderson, P.; Woods, C. Ethics, Integrity and Well-Being in Elite Sport: A Systematic Review,The Sport Journal, v. 19, 2017. Acessado em 18/09/2017 de http://thesportjournal.org/article/ethics-integrity-and-well-being-in-elite-sport-a-systematic-review/
2. Burroughs, B.; Vogan, T. Media Industries and Sport Scandals: Deadspin,Sports Illustrated, ESPN, and the Manti Te’o Hoax, IJSC, v. 8, n. 1, p. 87-102, 2015.
3. G1. “Vítima” de Nilton Santos, espanhol elogia brasileiro por enganar árbitro. Acessado em 18/09/2017 de http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2012/06/dois-passos-para-fora-vitima-da-furia-diz-que-nilton-santos-fez-o-certo-em-62.html

Carlos Drigo– Educador Físico e Psicólogo. Especialista em Psicologia do Esporte. Mestrando em Desenvolvimento Humano e Tecnologias – UNESP – Rio Claro.

Dr. Flávio Rebustini – Doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologias (UNESP – RC). Coordenador da Pós em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio.

Carlos Antero

Educador Físico

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